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segunda-feira, 24 de março de 2014

tem gente que vai pra nunca mais

Por Anna Paula Furtado



Após seis horas num ônibus fedido a calor, arrivo ao destino não muito obstinado. A velhinha do banco da frente salta antes, ainda no subúrbio da cidade que parece pequena demais pra ter um subúrbio. Encontra a conhecida de há-muito. Abraço forte demais pro calor que fazia, quase se grudam. Tendo a invejar a consolidação das duas. Não têm que se preocupar com o que serão daqui a dez anos nem a prova daqui a dez dias, não se desesperam ao perceber que o primeiro pensamento do dia é daquele que nem lembra que você existe, nem se perguntam como preencher a vida da melhor maneira, já sabem quanto vai ter na conta bancária no fim do mês e no fim do ano e no fim do ano que vem, já aceitaram que pagam impostos altíssimos sem retorno algum, política não muda nunca, não têm dilemas bobos, já não levam em conta os draminhas dos pais, usam a mesma jarra de suco todo dia no almoço, a roupa que vestem não mudará seu dia, não precisam mais fazer amigos, não morrem de amor, não se importam de passar sábado à noite em casa, gostam do natal em família, mil etcs. Simples: pairam sobre o tempo: vivem, fazem o que já sabem que deve ser feito, está tudo em seu lugar, é a vez dos filhos sofrerem sem se conformar com sofrimento e se equilibrarem nesta prancha doida.
Profundamente, que graça tem este pairar? Se já não podem ou querem mudar sua vida e, consequentemente, o mundo, qual a finalidade do seu ser? Sobreviver? Só? Será que sobreviver é um "só"? Será que sobreviver é a grande vitória? Se já não há curvas na estrada e vê-se, pouco nítido, seu fim, que combustível alimenta esta jornada?
Sem sombra de dúvida daquele dia de muito sol, as palavras de um outrém-aquém-de-apresentações legendam melhor o daguerreótipo captado pelo meu celular naquele sol a pino de subúrbio:
"(...)    está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?(...)

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

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