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quinta-feira, 20 de março de 2014

O DIA QUE O MURO CAIU

Por Vicente Evandro

“Se Tom aprendeu alguma coisa, foi que não se atribui um grande significado cósmico a um simples evento terreno.” A não ser que o evento seja o The Wall de Roger Waters.
Então eu pensei que iria gostar de ir a um show.
Era cedo quando partimos para São Paulo encontrar com alguns amigos, num domingo que poderia ter sido como qualquer outro. Ao chegar nos portões do Morumbi a conversa não podia ser diferente. Cada um tinha suas anedotas e experiências com uma das maiores obras da humanidade. Isto porque The Wall não é apenas música. É Arte pura de um gênio.

Por ter crescido ouvindo Pink Floyd, as expectativas para o show eram grandes. Já tinha visto o filme algumas vezes, ouvido o álbum milhares de vezes, tinha visitado o Rock’n’Roll Hall of Fame em Cleveland e visto uma pequena exposição sobre o The Wall onde tinha uma parte do muro. É incrível pensar como uma obra dessa magnitude surgiu de um incidente entre Waters e um fã e se tornou uma forte manifestação contra os desmandos do poder, se mantendo sempre atual.

Voltando ao dia do show, a espera foi longa. O que contribuía para o aumento da expectativa. O que não deixa de ser notável para um show em que o setlist é conhecido e já se sabe mais ou menos como que vai se desenrolar, afinal é uma obra conceitual que deve ser realizada no todo.
O céu escureceu. As luzes se acenderam.
As luzes se apagaram. Frenesi. Waters entra e sorri.
A expectativa era muito grande e, no entanto, não chegou nem perto do que realmente foi a experiência. Experiência. Isto porque The Wall não é apenas um show, é um espetáculo de perícia técnica audiovisual impecável e meticulosamente calculado.
Foi lá pelo final da primeira parte que se Tom estivesse por lá, teria aprendido que se pode atribuir um grande significado cósmico a um “simples” evento terreno.
Foi lá pelo final da primeira parte que um muro acabava de ser levantado e outro caía. Quando saí do transe, me dei conta de que estava em lágrimas. Olhei para os lados, vi meus amigos e outras pessoas na mesma situação.
Na segunda parte, a mesma hipnose tomou conta. É notável como o espetáculo mexe com todos os sentidos e toca em emoções que antes não achava ser possível vivenciar em tal lugar.

TEAR DOWN THE WALL! TEAR DOWN THE WALL!

E o muro caiu, com todos seus tijolos. Caiu sobre meus amigos, meu irmão, sobre mim e sobre todos nós. Catarse. No fim, o sentimento era o mesmo. Foi a purificação experimentada por todos que ali estavam.

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