Ana Beatriz Nogueira Lages
Imagem: (Teatro Deodoro. Maceió-AL)
Uma garotinha de 3 anos perdida naquela imensidão vermelha,
cadeiras, carpete, portas, e cortinas vermelhas. Apaixonada pelos detalhes dourados nos botões
e maçanetas. Olhava para cima a todo instante procurando ver mais uma vez
aquele que era o maior lustre que já se tinha visto na vida. Ouvindo
atentamente o violino que com sua leveza transformava o ambiente de pessoas
falantes, mais agradável. Andava pelos corredores devagar até encontrar uma
porta diferente de todas as outras, e entreaberta resolveu explorar. “5 minutos! Temos 5 minutos pessoal!” . Olhava
maravilhada, todas aquelas roupas brilhantes, batons vermelhos, coques presos
com arranjos bordados a mão, homens..homens vestindo apenas meias finas..homens..
“homens nus? Socorro!”. Apressou-se para fechar a porta quando uma mulher
puxou-a ainda mais rápido e encarou-a.
-Está perdida? Melhor achar seus pais para sentar, o
espetáculo já vai começar. –Disse ela.
-Não, não estou perdida, só queria saber o que tinha atrás
dessa porta.- Disse a garota ainda querendo saber o que era tudo aquilo.
-Aqui é a entrada para as cochias! Os bailarinos saem
daqueles camarins ali atrás quando estão prontos e esperam aqui pra sua
apresentação começar. Ah, preciso correr! Preparem-se meninas!- Gritou a mulher
virando para as garotas esquecendo-se de deixar a porta fechada.
Foi quando ouviu aquele barulho. Ah! Aquele barulhinho..Pisadas na madeira, eram
pés, gessos, eram SAPATILHAS!
Volta para sua cadeira, apaixonada. As
luzes vão se apagando devagar e um ultimo toque de aviso é alarmado. Arruma-se
na cadeira confortável, ajeita a postura, observa a leveza como as cortinas se
abrem e então olha para frente. E lá estão elas, as criaturas dançantes. Flutuavam. Eram anjos, ela ouvia anjos... "Ela pôde voar!"
Ao final daquele espetáculo, quando as luzes se acenderam e
a garotinha continuava parada olhando para frente e sonhando acordada. Quando der
repente com um susto se mexe e então cheia de emoção pula no colo do pai e
grita apertando as bochechas dele:
- Eu quero e PRECISO fazer isso!
Bom, fui matriculada no ballet naquele mesmo ano e fui
bailarina durante 11 anos e meio, incluindo 8 de jazz e sapateado e 2 de moderno
até entrar na companhia da ballet onde grandes bailarinos se apresentam fora do
País, mas saí. Por motivos pessoais deixei aquilo que eu mais amava, mesmo
assim, ainda hoje, escuto todas as noites as musicas das quais dancei e sonhei
em dançar, e não preciso de sapatilhas, ouvindo-as, eu ainda posso voar.

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